Minha Vida

Meus avós não tinham o hábito de contar histórias da Itália para os netos. Era muito difícil, sabe por que? Primeiro, os adultos não davam muita confiança à criança. Quer dizer, quando eles estavam conversando, criança não podia chegar perto para intervir em conversa , não é como a mocidade de hoje, que toma parte numa conversa de adulto. Naquela época, não tinha disso. A gente não tomava parte no que eles estavam conversando, tanto é que eu era um rapaz, um garoto, rapaz não, que naquele tempo era garoto, era um garoto, assim muito retraído, porque não tinha convivência com adulto. E, eu me lembro que eu era tão acanhado, mas tão acanhado, que quando falavam comigo, ou sabia que vinha um parente, ninguém me encontrava em casa não. Eu fugia. Eu não queria saber de gente estranha, era como se fosse um, um animal assim, meio com vergonha, por causa do modo de criação.

A Família era grande. Mas a gente se dava bem entre os parentes. A língua falada era português. O italiano se adapta muito bem ao Brasil. Olha que a minha mãe foi conhecer meu pai lá na Itália.

A gente se dava muito bem com a vizinhança. A gente nem tomava conhecimento dos adultos, a gente se dava com os filhos deles..E às vezes com a mulher, porque, naquele tempo, a gente era criança da seguinte maneira. Se você fosse na casa de um vizinho, você tinha que obedecer a dona da casa como se fosse sua mãe. Se você fizesse uma arte e ela te desse um beliscão, alguma coisa assim, não adiantava ir para casa contar que aconteceu isso não, porque você apanhava outra vez.

A nossa infância era com muitas brincadeiras, isso a gente fazia, mas naquele tempo, havia muita separação entre os meninos e as meninas, não é como hoje. A gente, naquela época , os meninos tinham umas brincadeiras, as meninas tinha outras. Não havia diferença de estudos entre os meninos ou meninas. O primário mesmo nós fizemos num colégio todos juntos.

A família sempre fazia o seguinte. Para a mulher, eles não faziam questão de ser formada. Tinha que saber ler, escrever, fazer o ginásio, até um curso normal, ou um curso qualquer, depois que estivesse preparada, lembre-se: isso é na nossa época, por isso que eu digo, são épocas diferentes, a mulher ia fazer curso para preparar para casar. Então, ela fazia arte culinária, cuidava dos irmãos, até que, a moça quando casasse já estava mais ou menos preparada para tocar um lar.

Meu pai foi arquiteto, tomava conta da firma, tinha funcionários. Eu às vezes, freqüentava certas obras mas, ele não gostava não, porque é sempre um perigo, e a gente, quando criança, quer saltar daqui, saltar dali. Eu me lembro que, na construção do Cinema Central, a gente pulava dos camarotes, no andar de cima num monte de areia. Coisa de criança.

Eu morava praticamente no centro da cidade. Era assim, num ponto alto, como, por exemplo Santa Teresa aqui no Rio de Janeiro, que você tem a vista do centro da cidade. Sendo que, naquela época, o centro da cidade, quando tinha prédio alto era de dois ou três pavimentos. Assim, você via a cidade, olhando para baixo. Hoje não. Naquele mesmo ponto você para ver a cidade, já tem que levantar a cabeça, por causa dos grandes prédios construídos.

A casa onde eu nasci, era a primeira casa que meu avô deu para o meu pai quando casou. Depois, mais tarde, como tinha um tio que ia se casar, e a minha família cresceu muito, a casa ficou pequena, então, eles desmancharam uma parte do morro. A casa no princípio, era assim mais no fundo, porque o nível da rua tinha que ser mais baixo também. Então eles calcularam, fizeram uma nova casa para a família. E a casa em que eu nasci passou para esse meu tio. Agora, a casa foi vendida, mas, ainda existe. Papai fez a nossa nova casa do lado do Castelinho, na rua Antonio Dias, 310. Tinha lá um lago, onde as crianças gostavam de brincas.

Comecei a estudar o primário, com a família da Dona Luiza Costa, era italiana também, Polini. Ela tinha três irmãs, todas elas professoras Ondina, Olga e Ercilia e o colégio era num galpão grande, e ali dava aulas para gente, entre 1923 a 1927.
De 1928 a 1930 fiz o ginásio no Instituto Bicalho. Para admissão no colégio, você tinha que fazer provas. Me lembro que na prova de Geografia, no sorteio, caiu sobre a Argentina. Fiz um desenho, tinha facilidade de desenhar  – a Argentina, os países em volta, rios etc – e não sabia a matéria. Tirei ZERO na dissertação e 10 no desenho. Passei com 5 (cinco).

Era um colégio mantido pela Dona Áurea Bicalho, o irmão dela era o Duque Bicalho, que era um maestro, compositor. até outro dia eu estava conversando com um senhor que é um funcionário aposentado do Banco de Crédito Real, ele é filho da dona curso primário que nós fizemos. A mãe dele chamava-se Dona Luiza, era italiana também, Polini. Ela tinha três irmãs, todas elas professoras e o colégio era num galpão grande, e ali dava aulas para gente, e foi ali que nós fizemos o primário.
Em 1930, eu estava no segundo ano ginásio, quando veio a Revolução de 30, ficamos uns meses sem aulas e aí veio um decreto do Getulio Vargas, passando todo o mundo por decreto. Não houve exame nessa época, ninguém precisou fazer exame e eu passei para o terceiro ano.

As mulheres também, em colégio interno lá , mas das Irmãs.Tenho duas irmãs que estudaram no Colégio Santa Catarina. E a outra que já era uma outra época, a irmã mais nova do que eu, que estudou na Escola Normal . Mas não era escola internato.

Nossa educação era seguida pela religião católica, até o meu pai construiu uma igreja perto de casa a Igreja do Rosário.

Vim para o Rio de Janeiro em 1931, aos 14 anos, ano que foi inaugurado o Cristo Redentor. Eu já estava estudando no Colégio São José. Naquele tempo o colégio São José fazia o seguinte, como outros colégios: a gente tinha uniforme de gala azul e tinha um branco .Era todo pomposo, parece até militar. A gente tinha aquele treino militar,com os tambores, tinha corneta, essas coisas todas e nós viemos tomar parte na inauguração que foi a missa no campo do Fluminense. E, nesse dia, o Marcondes ligou lá da Itália a iluminação do Cristo.

Meus pais sempre deram inteira liberdade de você escolher o que fazer da sua vida em qustão de estudos. Eles diziam que a gente quando é pequeno não tá vendo essas coisas, porque você não termina primeiro o ginásio, depois você faz isso, e foi o que eu fiz. Terminei o ginásio e depois fui tentar a escola militar.

Meu irmão Hugo já estudava aqui no Rio, no Colégio São José dos irmãos Maristas, que naquele tempo, era no Rio Comprido. Meu pai tinha uma idéia do seguinte . Que o filho, depois de uma certa idade, quando ficava assim, menino, tinha que ir para um colégio interno. Você podia ser um bom filho, mas tinha que ir para o colégio interno pra aprender a viver em coletividade. Então a idéia dele era essa: a gente estava naquela boa vida de casa, roupa lavada, papai, mamãe daqui, então, precisava aprender a viver. Então eu vim, para mim ficar, fiquei um ano aqui no Colégio São José, no Rio de Janeiro. É um colégio francês muito bom. Lá não era padre, era irmão marista, cada um deles era doutor em alguma disciplina. Era matemática, era física, então eles vinham com a organização religiosa, mas, com fundo educacional, para ensinar aquela matéria que ele era doutor. Eles tinham um sistema de ensino muito interessante. Eles achavam o seguinte: hora de estudo é hora de estudo e hora de brinquedo é hora de brinquedo. Eles não admitiam, por exemplo, que você estivesse no recreio, hora do recreio e ficasse conversando. Você tinha que arrumar as brincadeiras mais tolas, mas tinha que arrumar, você tinha que se distrair. Todas as aulas tinham um programa muito interessante. Eles adotavam muito uma coleção de livros que nós chamávamos FC. É uma coleção muito boa . Hoje é completamente diferente o ensino. FC é o autor do livro. Eu só lembro que era de geometria, álgebra. Não me lembro o que queria dizer FC. Ë uma coleção muito boa, adotada pelo colégio Pedro II e eram livros bons. . Você estava estudando física e você tinha que ter dois cadernos sobre física. A ordem deles era a seguinte: toda aula, o professor recolhia o caderno dado na anterior, o exercício, e passava no fim da aula, exercício para a nova aula, e eles faziam isso para quando você chegava num estudo, você nunca podia dizer eu não tenho nada que fazer. Eu aí aprendi a estudar. Eu gostava mais de matemática. O engraçado é que eu fui estudar odontologia e não tem nada com a matemática

Eu saí do colégio por uma razão. O meu irmão, o Hugo, era muito benquisto pelos colegas . E em colégio de padre sempre tinha o que nós chamávamos chaleira, que era aquele aluno que tudo que ocorria dentro do colégio o padre acabava sabendo. Era um sujeito, era um quinta coluna, vamos dizer. Então a gente sabia, fulano, fulano, fulano. Eles fizeram uma campanha contra eles, tipo não se dirigia a palavra para eles. Se ele conversava com você, você fingia que não existia. E eles foram queixar ao padre, aos irmãos maristas. E nós fizemos uma besteira, que todos aqueles que apoiavam, usavam uma fitinha de cor que punha aqui no uniforme, e mostravam quais as pessoas que eram solidárias aos outros.
Meu irmão Hugo era um dos cabeças. Um dia o diretor da escola passou a aula assim e foi vendo aqueles que tinham a fitinha. Nesta época, no colégio você não tinha nome, só tinha número. Eu era o 175 e o meu irmão era 82, era o número de matrícula. Aconteceu que, quando passaram eu estava apoiando a cabeça abaixada e o diretor não viu que eu estava com a fita e eu não fui repreendido. Eles pegaram os quatro, meu irmão e mais três. O castigo deles era um castigo muito mais moral, por exemplo, na hora do recreio em vez de você estar lá conversando, brincando, você ficava de costas para a parede decorando, Os Lusíadas, ou decorando textos em inglês. E decorava mesmo.
Naquela época a gente dormia eram oito horas da noite e eles iam dormir nove horas. De oito às nove, eles ficavam lá, em pé, decorando....
Dormíamos em dormitórios grandes.Tinha o dos menores, nós éramos médios e tinha os maiores. Isso aqui é internato, mas tinha semi-interno também, mas eram poucas.crianças. Não tinha externato porque tem o Externato São José que é ainda lá na Barão de Mesquita, na Tijuca e o internato está lá em cima mais ou menos no Alto da Boa Vista. Foi lá que eu estudei esse último ano .

Quando estudava interno, só em época de férias eu ia para Juiz de Fora.. Férias, mesmo, no meio do ano, acho que eram l5 dias e no fim do ano. Dia de saída só tinha duas por mês. Qualquer coisa que você fizesse de errado, você perdia a saída
Algumas vezes eu perdi, chegava depois da missa, chegava no dormitório e participavam os que perderam a saída: numero tal, tal tal.
O meu irmão, por exemplo, não sei que foi que aconteceu, eles resolveram expulsá-lo. Ele e aqueles três lá. Existia uma comunicação entre a saída do prédio , um pátio dos menores, dos médios, eles tinham uma porta, ele veio, na hora de ir embora, conversar comigo, ele era muito querido, todo o mundo foi chegando. Aí o padre dava um apito e todo o mundo parava. Aí dizia: só pode ficar perto do 82 o 195. Aí Hugo fez o gesto "dando uma banana" para o Irmão e foi embora. Esse Irmão, tinha apelido de Irmão Pimenta, porque, qualquer coisinha ele ficava vermelho. Aí a expulsão.
Chegou no ano seguinte, eu fiquei assim, , para ir sozinho para o Rio de Janeiro sozinho, não quis voltar não. Então ficamos no internato da Academia de Comércio, em Juiz de Fora.
Meu irmão mais velho ficou no Santa Rosa, depois foi para o São José e o meu tio Arthur também estudou no Santa Rosa.
As meninas ficaram no colégio Santa Catarina, um colégio tradicional, muito bom. A Lucy, minha esposa, estudou no Stella Matutina, que também era religioso.

Como disse, voltei para Juiz de Fora e no ano seguinte fui estudar internado na Academia do Comércio. Na hora do recreio, a gente via a minha casa lá embaixo, não era longe. Todo domingo a gente saía, mas você tinha que voltar cinco e meia da tarde.
Era chato porque passávamos pelo Parque Halfeld, neste horário e, todo domingo, assim à tarde, tinha a retreta - uma banda de música. A gente tinha que ir subindo e dando adeus para tudo isso... A Academia fazia uma sessão de cinema lá mesmo mas, se vinha um beijo o padre punha a mão na frente da objetiva para não aparecer.Cinema de padre antigamente era assim.

Na Academia, tiveram muitas que eu não gostei. Tinha um padre lá que aparentava não ser muito normal , eu sempre fui muito rebelde... .Até a mamãe quando eu apanhava era para isso, que eu era teimoso . Mamãe não era sopa não. Mas o padre falava comigo, negócio de obrigação e eu sou contra isso. Se você disser que teu tenho que agir dessa maneira e eu não acreditar que é assim, você não obriga não que vem uma reação contrária. Um dia ele chegou e me expulsou da aula de religião. A sala de aula tinha um corredor largo de um lado, cheio de janelas. A hora que ele entrava eu saía e ia ficar lá no corredor. Ele percebeu que eu estava gostando disto. Um dia ele mandou convidar para entrar. Eu falei com um colega que eu estava muito bem lá fora , então ele mandou um bilhete escrito em alemão, porque lá era alemão, mas eu vi que ele falava um negócio de religião lá no meio para entregar ao Reitor. Levei lá, ele leu e disse: "esse aí está mal" . Ele falou para o padre se não me fizesse  entrar na aula, ele preferia largar até o colégio. E eu então, espertinho, falei com o padre o seguinte: deixa eu ir para casa para eu pensar. Então eu passei fim de semana em casa, mas eu não ia fazer isso, porque estava no fim do ano e eu ia ser expulso do colégio. Cheguei em casa e falei o que aconteceu e que eu não queria ser expulso. Mas, no final do ano eles não me aceitaram mais através de uma carta.

Fui para o Granbery entre 1932 - 1933, uma escola americanizada. Eles, quando vieram para o Brasil, tinham a idéia de fazer uma universidade. Compraram uma área enorme de terra, que, era na época, meio retirado do centro da cidade. Eles chegaram a ter faculdade de Odontologia, faculdade de Direito, curso de Biologia, curso de Contador. A primeira coisa que eles fizeram foram o primário e o ginásio. Os reitores, naquela época, eram reitores americanos.
Era uma escola mista, sendo que, o elemento feminino era muito menor , porque lá tinha um internato na época. Tinha um casal, Mister Wiver e sra Wiver, que mexiam com negócio de hanseníase, no Brasil inteiro. Ela era famosa porque trabalhou muito para isso, inclusive em Juiz de Fora. Os dois faziam parte do corpo docente. Mr.Wiver ensinava a educação sexual para os homens. E sua esposa ensinava para as meninas. Hoje é novidade, educação sexual e na minha época, já se ensinava no Granbery . Existia uma caixa que você colocava o papel com qualquer pergunta e não precisava assinar . Ele, então, lia, e, quando tinha uma coisa de molecagem, o Mister Wiver dizia que tinha uma coisa aqui de algum engraçadinho. Ele queria dar a entender , de que aquilo não era coisa brincadeira, era um assunto sério. . Tinha uma vez, um amigo meu que dizia que ficava admirado com a minha família católica permitir que eu estudasse no Granbery, porque era uma escola de protestante. Antes de começarem as aulas tinha a hora cívica, em um salão enorme. Se hoje tinha uma data histórica no Brasil, 7 de setembro, por exemplo, então eles falavam, tinha oradores para isso, falavam o que era 7 de setembro. Quando não tinha assunto nenhum, eles pegavam o Salmo do dia e dissertavam.
Estudávamos física, química, história natural, geografia (Brasil), cosmografia (mundo), astronomia, história do Brasil, latim ou grego, desenho geométrico e figurado ( com a peça ao vivo e jogo de luz), matemática e português.
O Granbery tinha grêmios literários que desenvolviam a oratória e apresentavam trabalhos. O Timponi ganhou como o melhor orador.

A minha mãe apesar de que ela veio, que a minha mãe não conhecia ninguém da minha família , a não ser o tio que foi conhecer a família dela na Itália, quando meu pai queria casar. É o único elemento que ela conhecia. Ela não conhecia ninguém. E nunca tinha vindo ao Brasil e lá a fama que o Brasil tinha, era que você encontrava ouro no meio da rua, você encontrava cobra no meio da rua, era isso.Eu, quando novo, me lembrava que falavam muito sobre isso. Porque ninguém imaginava o que era o Brasil, e a minha mãe veio para morar no interior, lá em Juiz de Fora. Até eu mexia muito com ela, eu falava assim: "A senhora gostava mesmo do papai, heim, a senhora, bonita como era, e vir parar aqui no interior , sem conhecer a família..."

Minha mãe era de Nápoles. Napolitana pura. Era mais velha que o papai dois anos. Papai tinha 17 e ela tinha 19. Fez o estudo normal, não fez curso superior . Naquela época se preparava a mulher para ser dona de casa.
Eu achava que ela era uma mulher avançada para os padrões da época dela, o pensamento dela... Tanto é que a minha mãe sempre falava, que tinha medo, por exemplo, que meu irmão mais velho, que era um pouco mais mulherengo, ela tinha muito medo que ele ficasse com uma mulher. Ela sempre dizia para que ele nunca permanecesse com uma mulher só, porque você pode criar até paixão e a própria mulher pode gostar de você. Como, a gente conhecia casos em Juiz de Fora, que o sujeito casou com uma mulher da vida . Ela dizia isso.

Eu, meu irmão e meu primo Hélio tínhamos a mesma idade. Morávamos, como toda a família, tudo no mesmo lugar, na mesma rua, então,  eles diziam que a gente estava numa idade daquelas, rapazote, então nós tínhamos de procurar o médico da família. Naquela época, o meu irmão ainda não era médico Tinha um médico da família até era um italiano .Então, minha mãe combinou com a minha tia, e foram falar com o doutor Fausto para nos chamar no consultório, para dar umas lições neles. Dr. Fausto disse que queria falar conosco e mamãe tanto insistiu que um dia fomos nós três lá. Então, na verdade, isso foi uma coisa muito boa, porque o Dr. Fausto nos mostrou o perigo de relações, todos os cuidados que você tinha que ter, e disse que, qualquer coisa que tivéssemos, não precisava falar com nossos pais e ir diretamente no consultório. Aí, quando chegamos em casa, com aquela cara de sonsos , a mamãe e a minha tia perguntaram o que é que o Dr.Fausto queria com a gente. Ela armou arapuca para nós e nós caímos.

A família morava todos na mesma rua porque meu avô dava um lote com a casa ao filho que casasse. Ainda existem algumas casas dessas. Ainda existe a casa onde nasci, a segunda onde morei, ja desmancharam e última dos meus pais, também existe. Perto das casas, tem a Igreja do Rosário, que foi o meu avô que construiu.

Voltando ao Granbery era um colégio que te dava liberdade, mas com responsabilidade. Vou te dar um exemplo: Eles faziam uma campanha contra o cigarro. Você via aqueles quadros explicando o mal que o cigarro faz, conferências contra o cigarro, faixas contra o cigarro, e tinha o que nós chamávamos de gerente, que era o que fiscalizava, chamava aqueles alunos, assim um pouco mais velhos, que, às vezes, não tinha onde estudar, e o Granbery dava o curso de graça e eles então, trabalhavam para colégio fiscalização para os alunos não fumarem. Quando era pego fumando, eles mandavam conversar com o Mister Moore. Ele dava uma lição de moral na pessoa, mostrando que proibia, porque o vício é um vício, mas pelo menos, o sujeito não vai ignorando que tinha o cigarro.
Em dezembro de 1933 foi realizada a formatura, numa turma de 50 alunos. A Formatura foi no Salão Nobre do colégio onde recebemos uma Bíblia Sagrada, na qual o diretor Mr. Moore escreveu a seguinte dedicatória: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem."

Sempre fui um rapaz tímido. Antigamente a gente fazia aqueles footing, tinha a rua principal, a gente fazia aquele footing, as meninas passavam, se a menina olhasse para mim e desse um sorriso, eu sentia aquele calor subindo . E eu metia a mão no bolso e me beliscava para ver se passava....Era assim mesmo...
Quem me vê hoje, não acredita, porque a natureza da profissão me exigiu que modificasse, porque, senão, eu não podia trabalhar. Eu trato com o público, às vezes, um público completamente desconhecido. Eu sinto que, às vezes, não sou muito falante, não gosto de contar coisas minhas, sempre fui assim, muito retraído ...

Eu era muito apegado à minha mãe, mas apanhava muito também. A mamãe sempre foi muito rigorosa, eu tenho boas lembranças dela . Ela é uma pessoa que viveu para a família, sempre muito religiosa..
Ela morreu de angina aos oitenta... Ela sofria de angina, e angina é uma coisa engraçada. Você pode ter muitos anos, e pode morrer de uma hora para outra. Angina é aquela compressão, aquela dor forte que dá no coração. Se você agüenta aquela fase, passa a fase e você volta ao normal. Agora, se você não agüentar, você perde até a capacidade de respirar. E, é assim, uma dor muito forte, tanto é que eles põem esses remédios para diminuir a dor forte. Mas a mamãe sempre falava assim: "Vocês sempre estão preocupados comigo, eu não, porque eu estou preparada para morrer.A única coisa ruim que eu sinto é deixar vocês." . A mesma coisa é a mãe da Lucy, minha mulher. Dona Carlota era uma que gostava muito de mim, mas GOSTAVA MESMO. Aliás, os pais, de modo geral. Mas, a mãe nem se fala. Ela também morreu assim, ela teve um colapso . Ela foi se levantar para fazer um eletrocardiograma , quando ela fez aquela força de levantar, ela caiu e morreu. Como o cemitério era próximo, foi todo o mundo, carregamos o caixão dela até o cemitério. Chegando lá, tinha de abrir o caixão, pois era exigência do cemitério. Estava um dia assim,meio chuvoso, sem sol, e na hora que abrimos o caixão dela saiu um feixe de luz do meio das nuvens, caiu no rosto dela, .... aquilo nunca me esqueci. E ela ficou um pouco inchada, diminuíram as rugas do seu rosto, ela parecia que estava dormindo.Então, para você ver, há certas mortes que eu aceito como vem, você não pode lastimar a morte......

Meu pai morreu no dia 22 de abril de 1969, depois de ter feito uma viagem ao Rio de Janeiro comemorando seus 60 anos de casados com minha mãe no dia 7 de abril de 1969, hospedando-se em um hotel na Av. Atlântica, conforme pedido de minha Mãe - passar esses dias namorando o mar. Minha mãe faleceu em 16 de outubro de 1977 deixando muitas saudades.

Todos os da família já tinham formado sua própria família. Papai casou-se cedo e quando tinha a idade dos seus 40 anos, todo o mundo pensava que ele era um irmão mais velho. Não pensava que era pai não. Ele sempre foi bonitão, cabelo ondulado, não era tão grisalho.

Minha mãe sempre se preocupava muito com o que estava acontecendo com os filhos. Quando ela fez 60 anos de casada, nós queríamos dar um presente a ela. Nessa época nós já tínhamos mudado para o Rio de Janeiro. Já estava morando no apartamento nosso. A minha irmã Yvette morava perto. Então, nós queríamos dar uma temporada, em estação de águas, mas, ela preferiu o mar que ela adorava. Lá, ela rezava seu terço olhando para o mar, depois vinha almoçar lá em casa, almoçava na casa do meu irmão. Foi aí que meu pai ficou conhecendo meu consultório aqui no Rio e minha casa também.

Minha mãe era muito religiosa, gostava de ajudar as pessoas - ela e minha irmã Nela faziam roupas de bebês para doar em instituições. Ela gostava muito do Brasil , de Juiz de Fora, meu irmão a levou para conhecer São Paulo. Ela recebeu uma sobrinha que veio da Itália para conhecer o Brasil.
Minha mãe fazia muita confusão com o português. Ela dizia: Está piovendo! Piovando com chovendo!!!!!
Eles nunca obrigaram os filhos a falarem italiano com eles. Só falavam italiano quando não queriam que alguém soubesse o que eles estavam falando. Eu acho que eles erraram, pois os pais devem sempre incentivar os filhos a falarem mais de um língua.

Ela voltou à Itália, primeiro com meu avô, ele ia sempre, depois ela foi sozinha com a minha madrinha e meu pai ficou. Minha madrinha é da família Rivetti. ela não era italiana, mas era casada com um italiano que era amigo muito íntimo da minha casa, tanto que, se minha mãe fosse viajar ficávamos na casa dela.

Minha mãe chegou a ir na sua cidade natal. Nessa época, ela ainda tinha um irmão e uma irmã, Na época da guerra, meu irmão Pantaleone, que era médico foi lutar lá como brasileiro, apesar de ter nascido lá. Eu era muito ligado a este meu irmão. Quando aparecia aquela turma fazendo bagunça dizendo: "Oh, bando de italiano, vamos quebrar a cara dele". Eles estavam querendo ir no consultório do meu irmão, fazer bagunça, então, fui com ele lá, nós fervemos água, gritamos e ficamos esperando o primeiro que subir iria receber água fervendo na cabeça. Eu tinha um cliente meu, que era médico do exército, quando ele viu que o exército estava convocando essa turma para mandar para lá, ele pediu transferência para o Rio Grande do Sul, porque o Rio Grande do Sul era tido como fronteira do Brasil. Então, foi para lá, para não servir o Exército. E o meu irmão, que era, italiano, brasileiro naturalizado, foi na Força Expedicionária, e esteve lá na frente. Esteve lá no front, salvando vidas, na chamada quinta coluna, defender o Brasil.

Na época da guerra eu trabalhava normal como dentista. Na época houve uma convocação dizendo que dentista que quisesse  servir para os convocados, fazer exame de dentes, e eu fui. Servi por servir. Mas meu irmão não. Meu irmão fez o serviço de médico da reserva, saiu como tenente, porque para registrar o diploma, ele tinha que ser. reservista. Então, como ele era formado, ele fez o serviço como oficial.
E ele foi médico do exército. Quando ele voltou da guerra, ele conseguiu ir para o hospital do exército, e foi um período que o hospital foi muito bem organizado, ele era da parte de cirurgia, trabalhou um tempo lá. Depois houve um problema - economia do exército,  então resolveram que todos aqueles convocados foram para fora, E puseram ele na rua. Aí, ele conseguiu, entrar para os Correios. Mas, como no Correios não tinha vaga, mas só para Médico Radiologista, ele veio aqui no Rio, procurou um amigo dele, o Jairo Cortes Araújo, que mexia só com parte de radiografia, e fez um estágio ali , voltando como médico radiológico. Mas, o interesse dele não era mexer com radiologia, era clínica mesmo. Aí, posteriormente, eles o convocaram,  mas ele disse que só interessaria ir para um hospital militar. Então, ele foi para um hospital militar.

Voltando ao Granbery, os professores de lá só podiam sair fora de lá se fosse para ensinar um curso superior. O resto, um professor tinha que estar à inteira disposição do colégio. Para isso, o colégio dava casa, dava curso gratuito e pagava o salário. Nós tínhamos um professor Carvalho, que era professor de Matemática, tivemos o professor ( esqueci seu nome) de história natural, que era um médico, tudo com aulas práticas. Nós tínhamos professor de química, tínhamos professor de laboratório que dava aula prática. De modo que, quando chegava na aula teórica, quando ele fazia um desenvolvimento de uma equação, ele isto aqui, juntando com isso vai dar esse resultado, tinha a experiência da prática. E era todos os professores assim, com uma orientação muito boa.

O Mr. Moore era um educador. Ele era diretor da escola. Mas, naquela época, depois que Getúlio para nacionalizar o ensino brasileiro, não permitiu que o diretor de escola fosse estrangeiro. Então, eles tiveram que dar um outro termo para ele ficar na direção. Mas, a responsabilidade perante o Ministério da Educação tinha que ser um brasileiro. Mas, a influência do colégio que obedecia muito a religião protestante, pois o colégio era mantido por eles, o conselho era formado pela igreja deles. O Mr. Moore era um sujeito que amava muito o Brasil. Se o Brasil tivesse um Ministro da Educação como o Mr. Moore, a.educação no Brasil estava resolvida. Ele era um homem que falava com você num tom sempre de conversa, nunca alterava a voz. Até as coisas mais graves ele conversava com você. Então ele passava uma lição de moral. Porque ele conhecia, a vida dos pais dos alunos, sabia o que que o pai fazia, o esforço que o pai fazia para manter aquele aluno ali na escola. Então, o aluno saía de lá, chorando.

O Granbery era uma escola normal. Tinha um internato, e tinha muitos alunos que eram filhos de pais católicos. E, como perto tinha a Igreja do Rosário que eu falei que tinha perto da minha casa, ele, aos domingos, tinha a missa das 8 horas, ele pegava um regente, juntava todos aqueles meninos, os menores, que eram filhos de católicos, e iam caminhando para assistir a missa. E ele era protestante. E isso é propaganda de protestantismo? Ele não admitia um aluno falar que era ateu. Isso ele não admitia .Podia ter a religião que tivesse. Você quer ver a que ponto chegou? Houve um ano lá, foi em 36 ou 37, houve uma enchente em Juiz de Fora, que quase que a metade, a parte baixa, de Juiz de Fora ficou, alagada. O rio, ainda não tinha sido retificado, ele fazia aquela movimentação de serpentina. Então, quando veio um volume de água muito grande, lá na cabeceira, e invadiu tudo. Toda a parte baixa da cidade, ficou coberta. Uma grande parte. No meu consultório eu tive que sair de manhã cedo porque, senão não podia sair mais. Eu já era dentista nessa época. Mr Moore foi até a parte do meretrício que era na parte baixa. Aquelas mulheres ficaram sem saber onde ir. Era num período de férias dos alunos . Ele disse: Antes de ser meretriz é um ente humano. Mandou chamar todas as mulheres da vida, arrumou roupa de cama, e as pôs no colégio até que a enchente voltasse.

Existe uma reunião de ex-Granberyenses, porque a gente sente amor por aquilo lá . Reuníamos sempre mas, muitos deles já faleceram. Que a minha turma mesmo era de 50. E hoje está reduzida aí talvez a uns dez, ou doze.... Nosso amigo Celio Evangelista e sua esposa Nise eram dessa congregação e faziam de tudo para o elo não se perder. Pena que Celio já se foi.

Depois que eu terminei o ginásio era para eu ir para a escola militar , não para ser militar. Eu queria a aviação militar. Era a idéia fixa que eu tinha, que me atrapalhou um pouco. Quando a gente tem idéia fixa tem isso, saiu fora daquele rumo, você não sabe o que que você vai fazer.

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