Cia.Industrial e Construtora
Pantaleone Arcuri


Tribuna de Minas – 02 de outubro de 2005

Fernanda Fernandes - Repórter

Arquitetura - Juiz de Fora pelas mãos dos Arcuri

 

Grande parte dos cenários mais conhecidos de Juiz de Fora tem uma assinatura em comum. Do Parque Halfeld ao Monumento ao Cristo Redentor, do Cine-Theatro Central à Associação Comercial, do Marco do Centenário ao Campus da UFJF, o nome Arcuri está impresso no patrimônio arquitetônico local em três gerações que construíram a cidade e seus principais cartões postais.

Os autores das obras são o italiano Pantaleone e dois de seus filhos, Raphael e Arthur, de gerações opostas pela diferença de 22 anos entre o primogênito e o caçula dos arquitetos. Houve outros engenheiros e arquitetos na família, como Reginaldo, Hugo e Nísio, que acompanhavam as construções e conduziam os diversos setores da Companhia Pantaleone Arcuri, fundada em 1895. No entanto, Arthur e Raphael tornaram-se os grandes expoentes por serem responsáveis pelos projetos.

Da lista dos bens tombados pelo município, a grande maioria é de Raphael, como a Vila Iracema, o Hotel Príncipe, o Castelinho dos Bracher, o Palace Hotel e parte da antiga Prefeitura, obras influenciadas pelo estilo eclético. Para o arquiteto Marcos Olender, que estuda os ornamentos de Raphael em sua tese de doutorado, a história do primogênito de Pantaleone sintetiza a virada do século XIX para o século XX. “É um exemplo para mostrar a complexidade e a riqueza do período”, afirma.

Olender esteve na península italiana para pesquisar a história da família e acabou apresentando uma comunicação sobre o patriarca em seminário sobre arquitetura, na Itália. “A platéia ficou assombrada com a abrangência da companhia de Pantaleone. Eles não conseguiam vislumbrar o tamanho de sua capacidade empreendedora no Brasil”, diz.

Pioneirismo

Pantaleone era um mestre pedreiro que, mesmo sem instrução de nível superior, tinha conhecimento construtivo e senso de oportunidade, aproveitando as inovações tecnológicas européias para concretizar uma sólida indústria vertical. O complexo criado por ele após se instalar em Juiz de Fora envolvia fábrica de ladrilho hidráulico, marcenaria, serralheria e produção de cimento amianto, cuja patente brasileira foi adquirida por ele, tornando-o único fornecedor deste tipo de telha no país durante muitos anos. O que suas empresas não produziam era vendido em sua loja de material de construção, cobrindo toda a cadeia construtiva, do projeto ao acabamento.

Rapidamente, Pantaleone tornou-se a figura central a impulsionar o desenvolvimento urbano da cidade. Sua companhia ergueu o prédio da antiga Prefeitura, o Espaço Unibanco Palace, o Museu do Crédito Real, o prédio principal do Instituto Granbery e o pavilhão de isolamento anexo ao hospital da Santa Casa de Misericórdia, além da sede da própria empresa e do Instituto de Educação (Escola Normal). Muitas de suas obras estão completando cem anos, como a Igreja do Rosário, cuja construção foi iniciada em 1905, e o Monumento ao Cristo, que comemora seu centenário em 2006.

Neste projeto de cobrir toda a cadeia construtiva, faltava à companhia um arquiteto com diploma e, para suprir esta deficiência, Pantaleone mandou o filho Raphael estudar na Academia de Belas Artes de Nápoles. Representante da nova utilização da arquitetura, feita a partir da preocupação estilística impregnada de ecletismo, Raphael se projetou com facilidade em Juiz de Fora e conferiu fisionomia própria à cidade por meio de sua volumosa produção.

Arthur combatia ferozmente o art-déco, uma das correntes adotadas pelo irmão, ao lado do art-nouveau e do neo-gótico. “É um estilo pobre e não teve influência em lugar nenhum. O único expoente art-déco que merece ser citado no mundo é o prédio da Crysler de Nova York. Em Juiz de Fora, o estilo só teve expressão porque aqui não havia arquitetos, só engenheiros”, diz.

Enfim, a modernidade

Mesmo discordando do irmão, Arthur sempre respeitou a obra de Raphael. Suas idéias não se encontravam, pois, quando Arthur se formou em arquitetura, Raphael já não produzia mais projetos. Imbuído de novas idéias, o mais novo profissional da construção na família chocou o pai para se tornar um dos gigantes do modernismo em Minas e um dos expoentes brasileiros dentro da nova corrente, convivendo diariamente com Niemeyer e Burle Max, os nomes mais famosos do período, que chegaram a fazer projetos para Juiz de Fora, porém sem sair do papel.

“Meu pai gostava de eu seguir a arquitetura, mas não apreciava o que eu fazia. Ele tinha uma fábrica de ornatos”, recorda, bem humorado. No modernismo, a ornamentação se dá pela incorporação das artes plásticas à arquitetura, com painéis e mosaicos. Este recurso foi amplamente utilizado por Arthur em suas residências, como no recém-demolido prédio onde funcionou o Magister, com obras de Guima, e no Marco do Centenário, monumento que engloba o primeiro mosaico modernista em praça pública do país, assinado por Di Cavalcanti. O marco figura entre os três únicos tombamentos realizados pelo Iphan em Juiz de Fora, reforçando sua importância para o país. O segundo tombamento nacional é o Cine-Theatro Central, projetado por Raphael Arcuri, e o terceiro é o acervo do Museu Mariano Procópio, instituição dirigida por Arthur durante 14 anos.

“A obra de Arthur é mais importante do que sua modéstia o permite supor”, afirma Marcos Olender. Cinco projetos seus integraram a I Mostra de Arquitetura Contemporânea Brasileira, exposta no Museu de Arte Moderna do Rio, em 1952, depois em Paris, Londres e outras capitais européias.

O reconhecimento de seu trabalho aparece nas declarações de um dos mais importantes teóricos da arquitetura brasileira, Lúcio Costa, na ocasião do lançamento do livro “Modern architecture in Brasil”, de Henrique Midlin, em 1956. Costa diz que o livro é fundamental, porém apresenta duas grandes lacunas ao deixar de lado o pernambucano Acácio Borsoy e o mineiro Arthur Arcuri. Para Marcos Olender, o fato de hoje Borsoy ter projeção nacional e Arcuri não gozar da mesma fama se deve ao fato de a produção do juizforano estar concentrada em Minas, embora a localização não tire a importância de suas obras.

Segundo Olender, Arthur contribuiu para o ideário modernista, assumindo duas fases do movimento pela proposta de uma nova arquitetura e pela preservação da brasilidade, preocupand0-se com a preservação da identidade nacional. Outra faceta desta preocupação está ligada à preservação do patrimônio histórico, quando Arthur assumiu a primeira gestão do Iphan de São João del Rei, a convite de Lúcio Costa, o primeiro arquiteto a trabalhar na instituição nacional. “Se São João del Rei ainda tem belas construções de pé é graças à ele”, acredita.

Ao mesmo tempo em que Arthur se preocupa em afirmar a novidade estética, resgata o valor da arquitetura colonial. Olender explica que ele está ligado ao léxico construtivo colonial, produzindo releituras das varandas, das cozinhas e da simplicidade da arquitetura civil daquela época. Uma de suas obras, a conhecida como casa invertida, tornou-se um marco. Na construção, o arquiteto compõe a fachada privilegiando o interior do terreno, garantindo privacidade aos moradores e trazendo a área de serviço, cozinha e garagem, para a frente. Quando Athur concluiu a residência de Reginaldo Arcuri, à Rua Benjamim Constant 1.000, seu pai disse que aquilo não era uma casa, mas uma fábrica. O filho não se importou, afinal, a casa não era para ser vista, e sim para ser morada. “Fiquei até contente, pois na definição de Le Corbusier, a residência é uma fábrica de morar”, recorda.

A ligação do arquiteto com a UFJF

Próximo de completar 93 anos, Arthur é exaltado não apenas por sua obra, mas por sua generosidade. “É de seu temperamento, sua principal característica”, acredita Olender, citando as diversas doações feitas pelo arquiteto à Faculdade de Engenharia e ao Centro de Estudos Murilo Mendes. Sua ligação com a UFJF, entretanto, vem dos primórdios da instituição, afinal, Arthur foi o criador da disciplina história da arte e projetou o Campus Universitário.

Com tijolos aparentes e prédios integrados com a natureza, o projeto do campus arranca elogios até hoje. Do projeto inicial, o trecho planejado para a área onde funciona a Biblioteca Central não foi implantado. “Idealizei um prédio de 120m, para ligar os dois lados da universidade e servir de passarela. Minha idéia era construí-lo em 20 anos, em trechos de 30m para cada reitor. Desta forma, teríamos ali todos as áreas de convivência comum de estudantes e professores, com biblioteca, restaurante, etc.”

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